sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Uma luz no meio do túnel






São sete toneladas de entulho que acabaram com a luz no fim do túnel ou no meio dele, interrompendo o vai-e-vem da burguesia labutante que ficou enlameada com tanto entulho descendo do morro. A culpa seria municipal, estadual ou federal, ou talvez um pouco dos três, porque deixaram correr frouxo o fluxo de carros sem a observância da encosta. Tanto túnel para uma linda cidade montanhosa, furada de todos lados para dar passagem ao progresso, pois foi o tempo em que se subia e descia morros para se chegar ao paraíso das praias e do sol.

Mas tudo tem seu preço. Se o túnel encurtou o caminho e o tempo, agora os tráficos, o de carro e o de papel nos atiraram a outro mundo perdido de galerias enfumaçadas, de balas perdidas e dos deslizamentos anunciados para à população. De repente sofremos um apagão em uma das artérias principais da cidade, como um coágulo entupindo nossas vias e nos jogando ao passado do começo do século passado quando não havia stress e bonde não eram vários carros velozes cheio de homens armados atirando para todos os lados. E a favela do Serro Corá era apenas um quilombo que de vez em quando descia pela Rua das Laranjeiras fazendo um arrastão.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

apocalípse

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do fundo de minh’alma
afundado na fundação dos pilares
fuçando farelos feito ratasana
futricando o verbo dos vendidos
fazendo juras de amor ao capeta
fustigando os rabos das filhas de Jesus
fugidio da missão profética
foragido da justiça dos homens
mal fadado entre as múmias da academia
mal amado entre as putas do cemitério
ferido e possuído nas covas do apocalipse

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Toma lá dá cá



O bicho ta pegando para as celebridades daqui e da Califórnia. Em Hollywood um fogo que parece com cara de apocalipse, está arrasando as mansões das grandes estrelas do cinema, enquanto por aqui outras estrelas estão sendo roubadas em plena luz do dia, perdendo seus rolexes nas esquinas de São Paulo. Se isso não bastasse outras estrelas estão com suas cabeças quase rolando no congresso, como se o criador resolvesse cobrar com juros e correção monetária tudo que lhe devem.

Mesmo que você seja um craque de futebol, faça jogadas delirantes no Maracanã para a galera, não pode cair na gandaia numa boate na Barra, regada a bebidas e mulheres, e no dia seguinte chegar atrasado ao treino do maior time do mundo. Vai ter de pagar multa sim senhor, afinal o salário deles é um absurdo e dá mesmo para comprar aquela casa que rola na Internet e que dizem ser do Ronaldinho e que antes pertenceu ao Sergio Cabral Filho. E se for jogador do fluminense fazendo corpo mole porque já está classificado pra libertadores, muito mais ainda, e vai perder, como perdeu o direito a levar a mulher ao shopping em plena segunda-feira.

Se o drible, segundo o autor, chama-se “ você vai pra lá que eu vou pra cá”, o universo está com o ditado toma lá dá cá, mostrando que tudo na vida tem seu preço, mesmo que você seja um jovem governador bonitão, candidato à presidência da república, e esteja flertando com uma quase Miss Universo. Alguma coisa ele vai ter que dar em troca do dinheiro, poder, fama e mulheres universais. Talvez trocar um pássaro quase extinto por uma estrela a caminho da extinção.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

O drible do príncipe núbio



Foi o espetáculo de todos os espetáculos. A coisa mais linda de se ver aquele drible de Robinho, utilizando apenas a magia do contorcionismo do seu corpo para passar sobre o equatoriano numa área de apenas dois palmos de chão. Robinho é o nosso baryshnikov dos gramados, um bailarino da bola, um dançarino de tango, um passista de escola de samba, um príncipe nubio descendente de reis africanos que dançavam ao redor da fogueira comemorando a boa colheita.

Foi a festa buena da família global, gavionando audiência, verbas de publicidade e um bem estar com mais frangos nas barrigas e a vontade de ter menos balas perdidas no tecido social. Todo mundo de amarelo e cinco estrelas no peito porque somos cinco vezes campeões mundiais. Cem mil bandeirinhas distribuídas gratuitamente para tremularem sobre ingênuas mãos dos torcedores, preciosos eleitores patrióticos, fervorosos por milagres e glorias, desejosos por trabalho e dribles.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Desobediência Civil



Às vezes os limites são ultrapassados até mesmo aqui neste país de Renan Calheiros, que entre os inúmeros renans do Congresso entrou na sua zona de tolerância zero, quando começou a atrapalhar as negociatas dos outros renans. Resta saber se Renan vai afundar atirando para em cima dos seus pares e associados. Mas a vida continua, mesmo morrendo gente nas estradas e mesmo que outra grande jogada, dessa vez com a ajuda do BNDES, vai privatizá-las dando grana para um espanhol mafioso que foi condenado em seu país por sumir com 30 milhões de euros.

Mas o nosso país também é moderno e vai implantando um sistema de chip nos carros para ver quem esta com carteira vencida e ipva atrasado. Vai funcionar no começo, como aqueles adesivos colados no pára-brisa no ano de 97 e que foram vistos durante muito tempo pó aí. Se ficar com o governo, logo surgirá o clone do chip no camelódromo e o rastreador dele deixará de funcionar por falta de manutenção. Se ficar com a iniciativa privada, haverá um escândalo por não repassarem os recursos arrecadados para o estado ou se descobrirem que a concessão foi uma negociata.

O Brasil até será um dos mais modernos países do século XXI, mas será também o único a exercer uma criativa desobediência civil com esta cara de bagunça, mas que no frigir dos ovos, desbancará os corruptos, ou pelo menos os que estiverem em mais evidência, e sempre terá sua inventividade alertada e produtiva, gerando métodos, aparelhos e sistemas, às vezes pirateados ou não, que tirarão o cidadão comum das garras de empresários e de um estado corrupto e voraz. Nossa forma de sobrevivência vem desde o império quando o escravo colocava água na leiteira para sobrar algum dindin.